O Goiás atravessa um dos momentos mais delicados de sua história recente. E é justamente nesse cenário que o clube vai decidir, em Assembleia Geral, uma mudança estrutural importante: o fim do Conselho de Administração e a volta da figura do presidente executivo.
Pra quem só acompanha o clube pelas redes sociais e não entende muito de estatuto (e não precisa entender, esse é o trabalho da coluna), a mudança funciona assim, resumidamente: hoje o Goiás é comandado por um colegiado, o Conselho de Administração, onde a decisão é tomada em grupo e a responsabilidade se divide entre todo mundo. Com a reforma, o clube volta a ter um presidente eleito à frente da Diretoria Executiva, com vice-presidentes de área (jurídico, financeiro, futebol, marketing, esportes olímpicos) em papel de apoio e consulta, mas sem poder de travar a decisão do presidente.
A gestão do dia a dia, como contratação de funcionários e rotina administrativa, passa a ficar com uma equipe profissional contratada, que responde diretamente à Diretoria Executiva. Ou seja: sai o "todo mundo decide, ninguém responde", entra o "uma pessoa decide, essa pessoa responde".
E olha que se trata de uma mudança e tanto. O modelo colegiado atual coincide, ponto a ponto, com o pior momento da história recente do clube. Time brigando lá embaixo na Série B, salário e direito de imagem atrasados, e a sensação de que ninguém, especificamente, responde por nada. É o retrato clássico do que a teoria da governança chama de "responsabilidade difusa": quando a decisão é de todos, ela também não é de ninguém. Some-se a isso o excesso de instância consultiva, e temos a receita perfeita pra travar decisão rápida, exatamente o que o futebol moderno não perdoa.
Falta aquela pessoa pra dar a cara à tapa, o representante do clube para torcedores, imprensa, e aparecer na foto.
Quando existe um nome à frente, existe também um nome pra cobrar. Isso não é opinião, é princípio básico de compliance: quanto mais diluída a decisão, mais diluída a prestação de contas.
E aqui cabe desmontar um mito que anda circulando pelos comentários: SAF não é bala de prata. Vira e mexe aparece um "ah, o problema é não ser SAF", e não, meus amigos, não é bem assim. Transformar-se em Sociedade Anônima do Futebol não é sinônimo automático de solução financeira. É só uma roupa jurídica diferente, que pode até PIORAR as coisas se a gestão por trás continuar ruim.
O Vasco da Gama é o exemplo mais didático disso: vendeu 70% da SAF pra 777 Partners, viu a dívida do clube praticamente dobrar depois da operação, e hoje trava batalha judicial pra tentar reverter o próprio negócio que prometia salvação. O Cruzeiro, mesmo com investidor forte como Ronaldo Fenômeno na SAF, também carregou (e ainda carrega) uma bola de neve de dívida bilionária. SAF é ferramenta, não milagre. E ferramenta ruim manuseada por má gestão quebra do mesmo jeito.
Do outro lado do balcão, tem Palmeiras e Flamengo, os dois maiores exemplos de sucesso do futebol brasileiro na atualidade, e nenhum dos dois é SAF. Os dois seguem no modelo associativo tradicional, com presidente eleito, colhendo títulos e faturamento recorde ano após ano. A própria presidente do Palmeiras já declarou publicamente que, apesar de admirar o modelo SAF, não vê necessidade de mudar o que está funcionando. O Flamengo vai na mesma toada, defendendo abertamente que modelo associativo bem gerido compete de igual pra igual com qualquer SAF do mercado.
A lição que fica: o problema do Goiás nunca foi a natureza jurídica do clube. Foi a falta de uma liderança clara, com nome e sobrenome, pra tomar decisão e responder por ela. Presidente executivo não resolve tudo por mágica, mas devolve ao clube o que ele perdeu nos últimos anos: alguém que se levanta e diz "a responsabilidade é minha".
Protesto provar aqui, mais uma vez: entender esses mecanismos não é luxo de quem estuda direito. É ferramenta de defesa pra qualquer torcedor que queira acompanhar o clube com outro olhar.

