Essa velha frase talvez nunca tenha feito tanto sentido dentro do Goiás Esporte Clube.

O atual Estatuto já apresenta uma distorção importante: o Presidente do Conselho Deliberativo possui pouco poder efetivo de decisão, enquanto o chamado Conselho Administrativo — o famoso CA — concentra o poder da caneta e, consequentemente, boa parte das decisões que determinam os rumos do clube.

Mas o novo Estatuto, que está nas mãos dos conselheiros para votação na Assembleia Geral de hoje, traz questões que precisam ser discutidas com muita atenção pela torcida.

A primeira delas é: estamos apenas mudando o lugar onde o poder fica concentrado?

Pelo modelo proposto, o poder pode acabar ainda mais concentrado nas mãos do Presidente do Conselho Deliberativo. E aqui surge uma contradição curiosa: o Goiás pode voltar a adotar um modelo presidencialista, mas, na prática, o Presidente Executivo corre o risco de voltar a ser uma espécie de “Rainha da Inglaterra”: reina, mas não governa.

Quem realmente mandaria no clube poderia ser o Presidente do Conselho.

E aí chegamos ao ponto que considero mais preocupante: a ausência de uma regra clara sobre reeleição, conforme a leitura do texto que está sendo apresentado aos conselheiros.

Se o Estatuto não estabelece limites claros para a permanência no poder, abre-se uma margem que merece ser discutida profundamente.

Vamos imaginar um cenário hipotético.

Se, em vez de ser Presidente do CA, determinado dirigente fosse Presidente do Conselho Deliberativo e tivesse sob sua influência a maioria dos conselheiros, por quanto tempo poderia permanecer no poder?

É justamente aí que mora o perigo.

Não estou dizendo que isso necessariamente acontecerá. Estou dizendo que um bom Estatuto não pode depender da boa vontade de quem estiver ocupando o cargo.

Estatuto precisa criar mecanismos de proteção contra qualquer possibilidade de concentração excessiva de poder.

E essa preocupação aumenta quando olhamos para a história política do Goiás. Durante muito tempo, a oposição encontrou enormes dificuldades para formar chapas e disputar espaços dentro do clube. E quando o Conselho se transforma em um ambiente onde poucos questionam e muitos simplesmente dizem “amém”, o sistema de freios e contrapesos deixa de funcionar.

Conselheiro não pode ser apenas espectador.

Conselheiro precisa fiscalizar, questionar, cobrar e, quando necessário, dizer NÃO.

Porque o Goiás Esporte Clube não pertence ao Presidente Executivo.

Não pertence ao Presidente do Conselho.

Não pertence ao Conselho Administrativo.

O Goiás pertence à sua história, ao seu patrimônio e, principalmente, à sua torcida.

Por isso, não se pode concentrar poder demais nas mãos do Presidente do Conselho. Tampouco nas mãos do Presidente Executivo.

O caminho precisa ser o equilíbrio.

Um Presidente Executivo forte, com legitimidade para representar o Goiás, tomar decisões administrativas e ser a voz do clube perante a imprensa e a sociedade.

E, do outro lado, um Conselho Deliberativo verdadeiramente independente, exercendo seu papel de fiscalização, controle e freio institucional.

Esse é o verdadeiro sistema de freios e contrapesos.

O problema não é ter um Presidente forte.

O problema é ter um Presidente forte sem mecanismos suficientemente fortes para impedir abusos.

O problema não é ter um Conselho com poder.

O problema é ter um Conselho dominado por uma única corrente, sem oposição efetiva e sem mecanismos de alternância.

O Goiás precisa de um Estatuto que proteja o clube de pessoas — sejam elas boas ou ruins.

Porque hoje pode ser A, amanhã pode ser B.

E se o Estatuto permitir que qualquer um deles concentre poder e permaneça indefinidamente no comando, o problema não será a pessoa.

Será o sistema.

Por isso, antes de qualquer “sim” ou “não” ao novo Estatuto, algumas perguntas precisam ser respondidas claramente:

Qual é o limite de poder do Presidente do Conselho?

Qual é o limite de poder do Presidente Executivo?

Existe limite para reeleição?

Quais são os mecanismos de fiscalização?

Como garantir alternância de poder?

Como garantir que uma oposição tenha condições reais de participar da vida política do clube?

Porque mudar o Estatuto deveria significar modernizar o Goiás, e não simplesmente mudar quem segura a caneta.

Se o novo modelo realmente fortalecer a democracia interna, criar equilíbrio entre os poderes e impedir a perpetuação de qualquer grupo, ótimo.

Mas, se a mudança apenas transferir a concentração de poder de uma cadeira para outra, estaremos diante de uma mudança de endereço — não de sistema.

E isso precisa preocupar todo torcedor que se importa com o futuro do Goiás.

A pergunta que fica para a Assembleia Geral de hoje é simples:

ESTAMOS VOTANDO UM NOVO ESTATUTO PARA MODERNIZAR O GOIÁS OU UM NOVO MODELO QUE PODE CONCENTRAR PODER DEMAIS NAS MÃOS DE UMA ÚNICA PESSOA?

Torcedor esmeraldino, esse novo modelo te preocupa?