Entre as alterações estão medidas como a saída temporária de jogadores após atendimento médico, regras mais rígidas para reposições de bola e para o tempo de posse do goleiro, restrições à abordagem do árbitro pelos jogadores e a ampliação das possibilidades de intervenção do VAR. A CBF já havia anunciado que as mudanças foram definidas a partir das alterações aprovadas pelo IFAB e que sua implementação no Brasil exigiria adequações específicas nas competições.

Em princípio, nada a reclamar. Combater a perda deliberada de tempo, tornar o jogo mais dinâmico e aumentar o tempo de bola rolando são objetivos perfeitamente legítimos. Afinal, ninguém compra um ingresso, assina uma televisão ou passa duas horas diante de uma partida para assistir a jogadores deliberadamente retardando o reinício do jogo. Mas uma pergunta precisa ser feita: era este o melhor momento para mudar as regras? E uma segunda pergunta talvez seja ainda mais importante: a arbitragem brasileira está preparada para aplicá-las? Não estou defendendo o antijogo, a cera ou a catimba. Gostemos ou não, porém, determinadas práticas passaram a fazer parte da cultura do futebol. E quando se pretende modificar comportamentos que foram tolerados durante anos, talvez seja necessário mais do que simplesmente anunciar uma nova regra. É preciso preparar quem vai aplicá-la e, principalmente, quem será submetido a ela.

No Direito, quando se altera uma legislação que produzirá efeitos relevantes, é comum estabelecer uma data para sua entrada em vigor. Existe uma razão para isso: permitir que as pessoas conheçam a nova norma, compreendam seus efeitos e tenham tempo para se adaptar. No futebol, ao que parece, estamos tentando corrigir anos de problemas de uma hora para outra. Como se diz em Goiás, o apressado come cru. A mudança de regra durante o andamento de uma competição não é necessariamente ilegal ou inviável. Mas é, no mínimo, traumática. Jogadores, treinadores e clubes iniciaram a temporada conhecendo determinadas regras e determinados procedimentos. De repente, passam a disputar a mesma competição sob um conjunto diferente de parâmetros. O que ontem era permitido passa a ser punido. O que ontem dependia exclusivamente da interpretação do árbitro passa a ter consequência objetiva. E é justamente aí que mora o perigo.

A arbitragem é o ponto central Não há como discutir essas mudanças sem falar da arbitragem brasileira. Nos últimos anos, árbitros e árbitras têm sido submetidos a críticas constantes. Algumas são, evidentemente, fruto do conhecido “choro de perdedor”. Faz parte do futebol. Mas seria ingenuidade imaginar que todas as críticas são injustas. Dirigentes, jogadores, treinadores, jornalistas e torcedores frequentemente questionam decisões tomadas dentro de campo e, não raras vezes, mesmo depois da intervenção do VAR. É nesse ambiente que serão aplicadas regras que aumentam ainda mais a responsabilidade da arbitragem. O presidente do Vitória, Fábio Mota, ao comentar a votação sobre a implementação das novas regras, declarou ser favorável às mudanças, mas considerou prematura sua aplicação imediata. Segundo ele, o clube votou contra a entrada em vigor ainda nesta temporada justamente por entender que o momento não seria adequado. A manifestação é interessante porque não parte de alguém contrário à mudança. Ao contrário. O dirigente é favorável às medidas, mas questiona o momento de sua implementação. E essa talvez seja a discussão mais importante. Mota chegou a afirmar que poderia ficar a impressão de que a crise enfrentada atualmente pela arbitragem estaria contribuindo para uma implementação apressada das mudanças. Pode até não ser essa a intenção. Mas, no futebol, percepção também importa.

A regra é clara? Havia um tempo em que o ex-árbitro e comentarista Arnaldo César Coelho popularizou uma frase que entrou para o vocabulário do futebol brasileiro: “A regra é clara.” Mas será que é mesmo? Até hoje discutimos situações que, em tese, deveriam estar perfeitamente estabelecidas. O toque da bola na mão ou no braço é um exemplo clássico. Quando é infração? Quando, não é? Qual é a posição natural? Houve intenção? Houve aumento do espaço corporal? A própria CBF, em suas análises de VAR, precisa frequentemente explicar ao público os critérios utilizados para determinadas decisões. (CBF) Não estou dizendo que toda decisão seja errada. Estou dizendo que, se as regras atuais já geram tamanha controvérsia interpretativa, precisamos ter cuidado ao acrescentar novas situações em que o árbitro terá de tomar decisões em questão de segundos. O cronômetro poderia evitar uma nova polêmica Duas das novas medidas chamam particularmente a atenção: o limite de tempo para determinadas reposições de bola e o limite de oito segundos para a posse do goleiro. A ideia é simples. A execução, talvez nem tanto.

Se o árbitro precisa controlar cinco segundos para uma cobrança ou oito segundos para a posse do goleiro, surge uma pergunta aparentemente banal, mas extremamente relevante: quem controla o tempo? Hoje, em determinadas situações, o árbitro faz a contagem manualmente. Mas cada pessoa conta em um ritmo diferente. Um, dois, três, quatro, cinco. Foi realmente cinco segundos? Ou foram quatro? Ou seis? Parece detalhe. Até que uma partida decisiva seja definida justamente por causa disso. Por que não utilizar a tecnologia para eliminar uma discussão absolutamente desnecessária? Um simples cronômetro, visível para jogadores, comissão técnica, arbitragem e torcedores, poderia resolver boa parte do problema. No basquete, ninguém precisa discutir se o ataque durou 23, 24 ou 25 segundos. O relógio está ali. É objetivo. É visível. É igual para todos. No futebol, poderíamos fazer algo semelhante. O árbitro ou o quarto árbitro acionaria o cronômetro e todos saberiam exatamente quanto tempo resta. Não seria necessário discutir a velocidade da contagem do árbitro. Não haveria interpretação. Não haveria “o árbitro contou rápido demais”. Haveria apenas o relógio. Mais tecnologia ou mais responsabilidade? A ampliação do VAR também merece atenção. A proposta de ampliar sua atuação para situações como a revisão de uma segunda advertência que resulte em expulsão representa uma mudança importante no modelo de arbitragem. O protocolo atual do VAR, por exemplo, não permite revisão de uma segunda advertência com cartão amarelo. Mais tecnologia pode significar mais justiça. Mas também pode significar mais interrupções, mais discussões e mais responsabilidade para quem está atrás das telas. A tecnologia não elimina a interpretação. Ela apenas oferece mais informações para quem precisa interpretar. Por isso, talvez o maior desafio das novas regras não esteja nas regras. Esteja nas pessoas que terão de aplicá-las. Mudar é necessário. Mas preparar também. O futebol precisa evoluir. O antijogo precisa ser combatido. A perda deliberada de tempo não pode ser tratada como estratégia intocável simplesmente porque se tornou parte da cultura do esporte. Mas mudanças importantes exigem planejamento. Não basta determinar que o goleiro terá oito segundos com a bola. É preciso garantir que todos saibam exatamente como esses oito segundos serão contados. Não basta determinar cinco segundos para uma reposição. É preciso criar um mecanismo objetivo para que ninguém discuta se foram cinco ou seis. Não basta ampliar os poderes do VAR. É preciso preparar os profissionais que irão utilizá-lo. E, principalmente, não basta mudar a regra. É preciso mudar a cultura de aplicação da regra. As medidas são bem-vindas. A intenção é correta. O combate ao antijogo é necessário. Mas talvez a pergunta não seja se devemos mudar. Devemos. A pergunta é outra: por que mudar agora, no meio da competição, e sem que tenhamos a certeza de que todos os envolvidos estão suficientemente preparados? O futebol brasileiro já convive há anos com uma arbitragem questionada. Seria um contrassenso criar novas ferramentas para combater o antijogo e, ao mesmo tempo, aumentar o espaço para novas interpretações e novas controvérsias.

No fim, resta torcer. Porque, gostemos ou não, as mudanças virão. Tomara que venham acompanhadas de treinamento, preparação, tecnologia e, principalmente, critérios claros. Porque mudar a regra é relativamente fácil. Difícil é fazer com que ela seja aplicada da mesma maneira para todos.