Na última edição da Live do Radar Esmeraldino, uma ação de marketing chamou a atenção. Como disse o apresentador: "Já que #Brasil2026 não deu, vamos mudar para #Brasil2030."
Pode até parecer apenas uma brincadeira, mas a referência nos faz refletir: será que o hexacampeonato virá mesmo em 2030?
A indagação é pertinente e necessária. Nos últimos anos, a Seleção Brasileira tem apresentado resultados preocupantes. Não me recordo de ver a Seleção disputar uma edição das Eliminatórias Sul-Americanas sem que a primeira colocação fosse praticamente uma consequência natural. Aquilo que antes parecia obrigação tornou-se motivo de preocupação.
Mas, afinal, o que está acontecendo com a Seleção Brasileira?
Recentemente, durante participação na CazéTV, o ex-jogador da seleção portuguesa Ricardo Quaresma¹ afirmou que o Brasil está perdendo sua essência, deixando de lado o chamado "futebol arte" para buscar copiar o modelo europeu de jogar.
A observação despertou uma inquietação: será mesmo que estamos abandonando aquilo que sempre nos tornou diferentes?
Poucos dias depois, outra declaração reforçou essa reflexão. Em entrevista reproduzida pela imprensa esportiva, o técnico Jorge Jesus², ao comparar Portugal e Brasil, afirmou que ambos possuem enorme qualidade individual, mas concluiu:
"O Brasil tem sempre grandes jogadores. Mas depois não conseguem fazer uma grande seleção."
As duas manifestações parecem convergir para um mesmo diagnóstico. De um lado, Ricardo Quaresma aponta uma possível causa: a perda da identidade do futebol brasileiro. De outro, Jorge Jesus evidencia a consequência: continuamos formando jogadores extraordinários, mas já não conseguimos transformá-los em uma seleção capaz de repetir as grandes conquistas do passado.
Como se não bastasse, essa percepção também encontra eco fora do universo luso-brasileiro. Em análise publicada pela BBC e reproduzida no Brasil pelo InfoMoney, o jornalista esportivo Phil McNulty³ resumiu a atuação da Seleção de forma contundente:
"Lento, sem inspiração e não-brasileiro. Arrastou-se pela Copa do Mundo sob o comando de Ancelotti e todas suas fraquezas ficaram expostas quando a equipe foi eliminada, com justiça."
Independentemente de se concordar integralmente com sua avaliação, uma expressão merece atenção: "não-brasileiro".
Quando um jornalista estrangeiro utiliza justamente essa expressão para definir o futebol da Seleção Brasileira, talvez seja o momento de fazermos uma reflexão mais profunda. O Brasil sempre foi admirado não apenas pelos títulos conquistados, mas pela maneira única de jogar futebol.
Passei então a analisar as últimas participações da Seleção em Copas do Mundo e percebi que o futebol brasileiro se tornou mais pragmático. Nossos jogadores parecem cada vez mais presos a esquemas táticos que, muitas vezes, inibem o individualismo, a criatividade e a genialidade — características que historicamente diferenciaram o futebol brasileiro.
Após o traumático 7 a 1 diante da Alemanha, em 2014, ficou a impressão de que a Seleção passou a buscar inspiração justamente no modelo que a derrotou: um futebol extremamente organizado, físico e disciplinado, semelhante ao apresentado pela seleção alemã campeã daquele Mundial.
Pode até parecer lógico copiar um modelo de sucesso. No meio empresarial isso é bastante comum. Empresas observam concorrentes vencedores e procuram adaptar suas práticas.
No futebol, entretanto, existe um fator que muitos esquecem: o fator humano.
Modelos podem ser copiados.
Talentos, não.
Com exceção da conquista de 1994 — quando, para o então treinador Carlos Alberto Parreira, "gol era apenas um detalhe" —, os demais títulos mundiais da Seleção Brasileira tiveram como marca registrada a genialidade de jogadores capazes de decidir partidas e mudar a história do futebol.
Há, inclusive, um dos mais tradicionais cânticos da torcida brasileira que traduz exatamente essa ideia:
"Em 58 foi Pelé, em 62 foi o Mané, em 70 o esquadrão..."
O torcedor não canta sobre esquemas táticos.
Canta sobre Pelé, Garrincha, Jairzinho, Romário, Ronaldo.
Canta sobre aqueles que transformaram talento em conquista.
Isso nos leva a outra reflexão: será mesmo que copiar o modelo europeu nos fará voltar ao topo do futebol mundial? Ou deveríamos recuperar aquilo que sempre foi nossa maior vantagem competitiva: uma identidade própria?
É preciso reconhecer, contudo, que o futebol mudou. A evolução física, tecnológica e tática tornou o jogo mais intenso, veloz e coletivo. As seleções campeãs das últimas Copas do Mundo demonstraram que organização, compactação e disciplina são requisitos indispensáveis para competir em alto nível.
Ignorar essa evolução seria um erro tão grande quanto abandonar nossa própria identidade.
O debate, portanto, não deve ser entre jogar como o Brasil ou jogar como a Europa.
O verdadeiro desafio é encontrar o equilíbrio entre esses dois universos.
A Espanha campeã em 2010 conquistou o mundo fiel ao seu estilo de posse de bola. A Alemanha de 2014 venceu preservando sua cultura de organização e intensidade. A Argentina de 2022 também não abriu mão de sua identidade competitiva, associando talento, entrega e forte conexão emocional com sua camisa.
Nenhuma dessas seleções foi campeã tentando copiar outra.
Todas potencializaram aquilo que já fazia parte de sua cultura futebolística.
É justamente nesse ponto que reside minha preocupação com a Seleção Brasileira. A organização tática deve servir para potencializar o talento, e não para engessá-lo. O sistema precisa estar a serviço do jogador, e não o contrário.
Quando criatividade, improvisação e ousadia deixam de ser estimuladas, perde-se justamente aquilo que, durante décadas, fez do Brasil uma referência mundial.
Talvez seja justamente esse o alerta presente, cada um à sua maneira, nas manifestações de Ricardo Quaresma, Jorge Jesus e Phil McNulty. Três profissionais com experiências distintas chegaram, por caminhos diferentes, a uma percepção semelhante: o Brasil parece estar deixando de jogar como Brasil.
Os mandatários do futebol brasileiro precisam fazer uma profunda autocrítica e compreender que o brasileiro é único. E seu futebol também.
Copiar um modelo rígido, disciplinado e frio contrasta com aquilo que sempre caracterizou nossa identidade esportiva: a ginga, a irreverência, a criatividade e a alegria de jogar.
O Brasil não se tornou o País do Futebol porque imitava alguém.
Tornou-se justamente porque fazia aquilo que ninguém conseguia fazer.
Penso que, se quisermos voltar a conquistar uma Copa do Mundo, talvez o caminho não seja tentar ser a Europa.
Talvez o primeiro passo seja, simplesmente, voltar a ser Brasil.

Notas de rodapé
¹ QUARESMA, Ricardo. Declaração concedida durante participação na CazéTV, ao comentar a identidade do futebol brasileiro e sua aproximação com o modelo europeu. Disponível nos canais oficiais da CazéTV e em reproduções da imprensa esportiva. Acesso em: julho de 2026.
² JESUS, Jorge. Declaração reproduzida pela imprensa esportiva durante entrevista em que comparou as seleções de Portugal e do Brasil, afirmando que o Brasil continua formando grandes jogadores, mas não consegue constituir uma grande seleção. Acesso em: julho de 2026.
³ McNULTY, Phil. "Lento, sem inspiração e não-brasileiro...". Análise publicada pela BBC Sport, reproduzida no Brasil pelo InfoMoney, sobre a campanha da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Acesso em: julho de 2026.