Domingo o Goiás fez o que time grande faz quando está sem chão: calou a boca e trabalhou. Saiu atrás pro Avaí, e mesmo sem falar uma palavra com a imprensa, em protesto legítimo contra o atraso de salário, o elenco virou o jogo dentro de casa, na Serrinha, e voltou a vencer depois de um jejum de seis rodadas. Isso tem nome: hombridade. Time que segura a raiva, engole o silêncio e ainda assim entrega o corpo em campo merece reconhecimento, e não cobrança.

Porque a verdade, dita sem meio-termo, é essa: o elenco está com dois meses de salário atrasado, dois meses de direito de imagem em aberto e cinco premiações represadas. Não é atraso de uma semana. Não é imprevisto de mês ruim. É uma sequência que se arrasta desde o fim do ano passado, quando a administração do clube começou a perder o pé, e foi se acumulando até virar a bola de neve que hoje sufoca o vestiário.

O clube, hoje, vive de empréstimo. É a realidade nua e crua, sem precisar de fonte reservada pra confirmar o que todo esmeraldino já sente no dia a dia. E vale um esclarecimento importante: a gestão que criou esse buraco continua sendo a mesma. A mudança de estatuto trocou o nome do cargo, de Conselho de Administração pra presidente executivo, mas as pessoas à frente da administração seguem sendo as mesmas de antes da reforma. Nomenclatura nova não é gestão nova.

E vale também um esclarecimento técnico, sem entrar em detalhe que não cabe numa coluna de torcedor: atraso de salário e de direito de imagem por período tão longo caracteriza descumprimento de obrigação trabalhista, e isso tem consequência jurídica prevista em lei, tanto na Lei Geral do Esporte quanto na legislação trabalhista comum. O elenco optou pelo caminho do protesto silencioso, dentro de campo, em vez de judicializar a situação. E isso também merece reconhecimento.

Não é hora de apontar dedo pra ninguém. Dirigente tem nome, tem mandato, tem responsabilidade dentro da lei, e isso a gente já discutiu aqui. Mas o torcedor esmeraldino sabe reconhecer o óbvio: o clube vem sendo mal administrado há tempo demais, e quem paga a conta, além do bolso do jogador, é o resultado dentro de campo. Time que joga sem saber se vai receber, e ainda assim entrega suor, merece um aplauso de pé, não um "podia ter feito mais".

E é hora também de fazer as pazes com a realidade. Dificilmente o Goiás termina esse Brasileirão dentro do G6. As contas não fecham, o calendário não perdoa, e fingir o contrário é só adiar a frustração. Mas existe um consolo real, e ele não é pequeno: o time está longe do Z4, sem risco efetivo de queda. Numa temporada dessas, com esse tanto de problema fora de campo, terminar a Série B com a cabeça erguida e sem sustos de rebaixamento já é vitória.

E fica a torcida sincera pra frente. Com a mudança de estatuto que aprovamos em agosto, o Goiás volta a ter, em dezembro, eleição pra escolher um presidente executivo de verdade, com nome, sobrenome e mandato pra 2027-2029. Que venha alguém com ponta firme, que saiba representar o clube com dignidade e assumir a responsabilidade que o cargo exige, porque o elenco já mostrou, com o silêncio e com o resultado dentro de campo, que faz a parte dele. Falta o resto do clube fazer a sua.